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A mostrar mensagens de março, 2022

Deus, Kierkegaard e o Cepticismo I

            KIERKEGAARD Considerado o pai da filosofia existencialista (se não nos referirmos a "precursores", identificando, entre eles, desde logo Santo Agostinho), Sören Kierkegaard concebe a existência de um sujeito como podendo ser vivida em uma de três diferentes esferas: o estádio estético, o estádio ético e o estádio religioso. O que julgo mais profundamente inovador nesta visão, até por causa de consequências que desenvolverei adiante, radica no facto de não haver transição contínua de um estádio para outro. Qualquer um deles é fechado sobre si. Nada justifica, como se se tratasse de uma evolução, a passagem, por exemplo, de uma existência estética, para uma existência ética. São categorias diferentes: pontos de vista de que se não muda por necessidade de uma superação. Se me decido por viver esteticamente, como Don Juan (modelo, segundo Kierkegaard, desse modo da existência), gozando o descomprometimento próprio do sedutor, uma recusa de laços qu...

Deus e a Biologia

 Algum argumento exposto no meu anterior post prova a existência de Deus, mais consistente ou, pelo menos, eficazmente, do que os argumentos dos filósofos? Na verdade, não. Ainda que a substância da realidade fosse consciência (o que não constitui a única interpretação das experiências da mecânica quântica: existe também, é claro, uma leitura materialista dos resultados), não fica garantido que devamos ver essa consciência, a tudo subjacente, como "criadora" ou omnipotente. Simplesmente, mantém-se reaberta, e entreaberta, por uma metodologia que se alimenta da experimentação e da matemática, a hipótese de Deus. A biologia, do meu ponto de vista, reforça essa ideia. O argumento do desígnio inteligente não desmente propriamente o darwinismo, mas denuncia a sua insuficiência. Como diria Kant, a finalidade do contingente e, ao mesmo tempo, o modo como esses fins detectáveis nas espécies, que se harmonizam com fins mais gerais, ou que se realizam através de uma troca, de uma parc...

Deus e a Física

 O enigma adensava-se, como num puzzle policial. Tudo o que se foi tornando objecto de experimentação apontava para resultados cada vez mais incompreensíveis, desconexos e insensatos - a não ser que se pusesse em causa uma série de dogmas estabelecidos cientificamente. A começar pelo átomo, que afinal já não era, como tinham julgado, havia séculos, os atomistas, a parte menor e indivisível da matéria: possuía ainda um núcleo, constituído por nucleões (os protões e os neutrões ) e partículas orbitando em redor daquele, os electrões .  Chamei, ao electrão, uma partícula. Mas eis que já aqui se entrevê, numa ordem arbitrária, um primeiro problema no exame do mundo subatómico. [Gostaria muito de não ordenar arbitrariamente os problemas que irei mencionar, e sim segundo uma estrutura bem fundada, mas convém não perder de vista que não passo, relativamente à Física, de um leigo e de um amador: claro, um "amador" também na acepção de quem ama o objecto, no caso, a Física Quântica...

Deus: Mecânica Quântica e Berkeley II

                             " Esse est percipi"                           George Berkeley  Nascido em 1685, crescendo, pensando e publicando já no século XVIII, George Berkeley foi um dos mais radicais filósofos idealistas, ao fundar um sistema que designou por "imaterialismo" (mais tarde chamado "idealismo subjectivo"). A sua obra não terá sido particularmente bem aceite: apesar da admiração que David Hume testemunhou ao pensador irlandês, referindo-se-lhe como "grande filósofo" e parecendo mesmo perfilhar o seu imaterialismo ou, pelo menos, admitir que reunira argumentos para discutir com seriedade a hipótese do realismo , o certo é que John Locke, por seu lado, discordou do imaterialismo, disparando, contra ele, objecções fortes - que Berkeley seria obrigado, aliás, a considerar e a incorporar em obras posteriores -, e que Thomas Reid pro...

Deus: Mecânica Quântica e Berkeley I

 Parecendo que fiz um desnecessário desvio, ou que perdi um desajustado tempo com a argumentação kantiana, de facto não cometi nem um nem o outro pecados. O confronto com Kant era indispensável. Porque a) Kant é particularmente importante para mim, sem dúvida, mas tal seria uma razão subjectiva;  ainda: b) a crítica que Kant faz aos outros argumentos é demasiado incisiva para que a ignoremos, c) a desmontagem do argumento ontológico, a que procede especialmente, é de uma inteligência que detecta finamente o verdadeiro problema, d) passa em revista o estado da arte relativamente aos caminhos encetados até então (é certo que não discute outros argumentos de Aquino ou Descartes, mas podemos subentender que os toma por subsumidos no argumento cosmológico - seriam variações do mesmo, afinal -, como é certo que não discute Pascal, mas podemos subentender que considera irrelevante uma prova que nada procura provar) e porque, last but not least , e) ao fazê-los tombar com um murro ...

Viagem pela Filosofia em Busca de Deus: Prolegómenos IV

               KANT [CONCLUSÃO] Quando vai enunciando uma série de aspectos da "ordem natural", desde a regularidade e a delicadeza dos flocos de neve, à proporção e clareza de forma das flores, desde o facto de, " na estrutura de um animal , os órgãos da percepção sensível estarem tão engenhosamente conjugados com os do movimento voluntário e   vitalidade ", até ao de os felinos possuírem unhas retrácteis, que lhes permitem usá-las na caça, mas protegê-las durante o resto do tempo, desde a formação dos rios até a magnificiência frágil das teias que as aranhas tecem, procura Kant mostrar-nos que em tudo, no cosmos e na natureza, o que detectamos são estruturas, formações e órgãos contingentes , os quais, não podendo, pois, ser pensados como absolutamente necessários, constituem, no entanto, a realização de uma "possibilidade" sábia e artisticamente desenhada. Não só porque, individualmente tomada, cada uma dessas estruturas se mos...

Viagem pela Filosofia em Busca de Deus: Prolegómenos III

        KANT Para Imannuel Kant, só uma prova de Deus é válida, ou uma única  demonstração , como a denomina, da Sua existência. Uma, só. Dá a entender que, se nos quisermos referir a um tipo de demonstração de carácter paramatemático, completa e rigorosa, só mesmo esta preenche a exigência, como se um ser com a envergadura de Deus não oferecesse, a um instrumento com a seriedade e o potencial da razão, mais do que um meio de O compreender, de O alcançar, ou como se diferentes caminhos não conseguissem chegar exactamente à mesma verdade. Contudo, embora a base seja uma única, Kant apresenta-nos duas diferentes maneiras de a percorrer, consoante o ponto de partida. Se nos ativermos à razão e o objectivo for provar a existência de Deus apenas pela e com a razão, deveremos reformular o antigo argumento ontológico , ou criar um outro tipo de argumento ontológico, evitando a falácia em que os pensadores anteriores se deixaram enredar. Se, inversamente, quisermos ini...

Viagem pela Filosofia em Busca de Deus: Prolegómenos II

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 Em Der   einzig mögliche Beweisgrund , que Gordon Treash traduz por  The One Possible   Basis for a   Demonstration of the Existence of God , "the one" este que, por minha vez, interpreto como "a única", lendo o título como se nos estivessem a falar de "a única base possível para a demonstração da existência de Deus", Kant principia, brilhantemente, de resto, por desmontar todas as veleidades do argumento ontológico. Como sabemos, no argumento ontológico, que já Gaunilo, primeiramente, e o próprio Tomás de Aquino, depois, tinham tentado desfazer como não passando de uma falácia, procura extrair-se, do conceito de Deus, a prova da Sua existência. O conceito exige, quando pensado, a existência desse Ser. Porque um conceito determina os predicados necessários do objecto concebido. Deixem-me esforçar-me por trazer alguma clareza na reconstituição de um argumento que os meus alunos têm dificuldade em acompanhar e, por isso, julgo complexo para quem...

Viagem pela Filosofia em Busca de Deus: Prolegómenos I

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 Dinamizo, na escola em que lecciono, um clube de debate. O clube é maravilhoso, porque ninguém o obriga a ser o que não é. Não tendo de cumprir um programa, nem objectivos impostos, não fazendo sequer parte da "área de cidadania", de modo a garantir a priori a autonomia e a independência a um grau extremo, foi formado a pedido de alunos que, indo, então, para o 12° ano e deixando de ter a disciplina, queriam continuar a encontrar-se comigo (com orgulho o digo), de forma a que não perdessem inteiramente a possibilidade do contacto com o "espírito da filosofia", o exercício da argumentação, as discussões infindas. Propus-lhes que nos revíssemos regularmente para debater, segundo três princípios orientadores: 1. Não existissem professores e alunos, mas iguais, irmanados pelo gosto da discussão e pela discussão propriamente dita. Não se trataria de aulas, com horários a cumprir, nem de nenhum tipo formal de aprendizagem. 2. Não haveria temas-tabu. Seriam os próprios ...

Das Razões

 Há muitas centenas de anos, quando não passava de um adolescente guedelhudo, devorador de livros de filosofia francesa e alemã, traduzidos para português (Sartre, Camus, Nietzsche, Freud e Marx), empenhei-me em deixar escrito um conjunto de textos, nos quais construía e apresentava uma mundivisão. Se me lembro bem de alguma coisa, é de que esses textos, dactilografados numa Olivetti que me durou outros tantos anos, se iam juntando num original a que dei o título de As Tentativas - inspirando-me canhestramente em Situações , de Jean-Paul Sartre [volumes I, II, III e por aí fora: também eu imaginava As Tentativas I, II, III e por aí adiante]. Refaço hoje o sonho com contornos diferentes. A idade e a experiência, que me vão dando vislumbres e argumentos, não direi um pensamento ou uma filosofia, mas vislumbres e argumentos sobre Deus, a sociedade, a ética e a arte ou o conhecimento, permitem-me a exposição das ideias que me guiam.  Esta tentação de reformular as minhas tenta...