Deus, Kierkegaard e o Cepticismo I
KIERKEGAARD
Considerado o pai da filosofia existencialista (se não nos referirmos a "precursores", identificando, entre eles, desde logo Santo Agostinho), Sören Kierkegaard concebe a existência de um sujeito como podendo ser vivida em uma de três diferentes esferas: o estádio estético, o estádio ético e o estádio religioso.
O que julgo mais profundamente inovador nesta visão, até por causa de consequências que desenvolverei adiante, radica no facto de não haver transição contínua de um estádio para outro. Qualquer um deles é fechado sobre si. Nada justifica, como se se tratasse de uma evolução, a passagem, por exemplo, de uma existência estética, para uma existência ética. São categorias diferentes: pontos de vista de que se não muda por necessidade de uma superação. Se me decido por viver esteticamente, como Don Juan (modelo, segundo Kierkegaard, desse modo da existência), gozando o descomprometimento próprio do sedutor, uma recusa de laços que não sejam os da sensualidade ou os do prazer imediato e os da busca do gozo, como se a vida fosse uma obra de arte mortal e finita, ninguém conseguirá provar-me, de fora, o mal fundado ou a insuficiência do sentido da minha existência. Nenhum argumento me mudará. Só eu compreendo, por dentro, um tal sentido, uma vez que é subjectivo. Claro que lido com ele angustiadamente, mas o sentimento de angústia, que era já, em Kierkegaard, e se transformará cada vez mais, ao longo da história da filosofia existencialista, numa pedra de toque da liberdade - a sua outra face, digamos -, não destrói nem desmonta, para quem a vive, a verdade desse modo da existência.
A existência ética, que encontra a sua voz filosófica na moral de Kant e tem no marido fiel um modelo, só pode ser tomada como superior à esfera estética por quem a tenha adoptado. Kant, ou um kantiano (ou um marido fiel) afirmarão a sublimidade do imperativo categórico e de uma vida devotada ao respeito pelo dever. Desprezarão, certamente, a errância e a ausência de raízes do esteta. Mas para que as suas palavras tenham sentido, é preciso que os que as escutam se encontrem no mesmo plano. É preciso que comuniquem no interior de um estádio comum. A verdade do sedutor não se vê afectada pela verdade do homem moral. Tal como a verdade subjectiva de quem escolhe o dever não se deixa influenciar pela do esteta. Não há pontes. Don Juan pode mudar: mas não porque o houvessem convencido, ou porque os argumentos o tivessem levado a confrontar-se com o erro do próprio modo de vida (que só pode ser apontado como erro a partir de uma outra perspectiva), e sim porque quis escolher outro modo - sem razão. Trata-se, metaforicamente, de um salto quântico. De uma conversão, de certo modo.
A palavra conversão aplica-se ainda mais adequadamente à passagem para a existência religiosa. O religioso é o homem cuja entrega a Deus se tornou total. Não há, para ele, outras regras. O absurdo da sua atitude, na perspectiva dos demais (os irreligiosos, por exemplo) resulta de que não se sinta obrigado por nenhuma regra humana. Abraão, que aceita sacrificar o próprio filho, pode provocar escândalo aos olhos dos outros homens. Abraão é o modelo do estádio religioso. A sua fé parece loucura. E a sua decisão será incompreensível à luz de qualquer lógica, de qualquer conveniência ou qualquer consenso social.
Por que motivo me interessa tanto esta tese? A ideia de que não tenho razões ou argumentos para mudar e, portanto, a mudança se justifica apenas para quem já mudou, para quem passou para o outro lado do espelho, para quem já entrou na outra esfera, que se explica a si mesma?
Porque aí descubro a verdade essencial e frequentemente incompreendida do conhecimento humano. Nenhum argumento me mostra Deus; tal como nenhum argumento me revela o que seja uma boa acção, ou o que seriam uma política correcta ou uma política incorrecta. Um argumento interpreta, mas diferentes argumentos interpretam opostamente os mesmos factos. O ponto, terrível, porventura, é que os argumentos não convencem senão quem já escolheu a esfera que lhe fornece esses argumentos. Mas a escolha é prévia. A escolha é cega. Não se baseia em razões: procura-as, constrói-as, claro, mas depois do salto.
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