Das Razões
Há muitas centenas de anos, quando não passava de um adolescente guedelhudo, devorador de livros de filosofia francesa e alemã, traduzidos para português (Sartre, Camus, Nietzsche, Freud e Marx), empenhei-me em deixar escrito um conjunto de textos, nos quais construía e apresentava uma mundivisão. Se me lembro bem de alguma coisa, é de que esses textos, dactilografados numa Olivetti que me durou outros tantos anos, se iam juntando num original a que dei o título de As Tentativas - inspirando-me canhestramente em Situações, de Jean-Paul Sartre [volumes I, II, III e por aí fora: também eu imaginava As Tentativas I, II, III e por aí adiante].
Refaço hoje o sonho com contornos diferentes. A idade e a experiência, que me vão dando vislumbres e argumentos, não direi um pensamento ou uma filosofia, mas vislumbres e argumentos sobre Deus, a sociedade, a ética e a arte ou o conhecimento, permitem-me a exposição das ideias que me guiam.
Esta tentação de reformular as minhas tentativas de um pensamento servem, antes de mais, para consumo próprio. Interno, como se costuma dizer. É a necessidade de reflectir, de me interrogar, de lançar uma base e de a testar. Escrever é, aqui, como falar em voz alta. É, realmente, como conversar comigo. Ouvir as minhas próprias ideias, de forma a perceber como me soam, e a que objecções resistem.
Só secundariamente, perdoar-me-ão a honestidade, as escrevo em busca de um público. Claro que se leitores vierem, muito bem-vindos serão. Que, se comentarem ou se derem ao trabalho de discutir comigo, farão o favor de me possibilitar afinar, recuar, replicar: estaremos pensando em conjunto, o que, a suceder, será uma inesperada vantagem.
O que estas Tentações e Tentativas venham a ser, o dirá o tempo.
Comentários
Enviar um comentário