Deus e a Física

 O enigma adensava-se, como num puzzle policial. Tudo o que se foi tornando objecto de experimentação apontava para resultados cada vez mais incompreensíveis, desconexos e insensatos - a não ser que se pusesse em causa uma série de dogmas estabelecidos cientificamente.

A começar pelo átomo, que afinal já não era, como tinham julgado, havia séculos, os atomistas, a parte menor e indivisível da matéria: possuía ainda um núcleo, constituído por nucleões (os protões e os neutrões) e partículas orbitando em redor daquele, os electrões

Chamei, ao electrão, uma partícula. Mas eis que já aqui se entrevê, numa ordem arbitrária, um primeiro problema no exame do mundo subatómico. [Gostaria muito de não ordenar arbitrariamente os problemas que irei mencionar, e sim segundo uma estrutura bem fundada, mas convém não perder de vista que não passo, relativamente à Física, de um leigo e de um amador: claro, um "amador" também na acepção de quem ama o objecto, no caso, a Física Quântica]. 

Que problema? 

Se, indiscutivelmente, em certas medições o electrão se comporta como uma partícula, isto é, um corpúsculo para todos os efeitos, em outro tipo de medições comporta-se como uma onda. O que significa então isso, e que implicações derivam de o definirmos como partícula, ou como onda ou, ambiguamente, como ambas?

Deparamos com um segundo problema, e este ainda mais complexo e bizarro, ao tentar encontrar o electrão. Qual o lugar em que se situa num momento x? Em nenhum lugar definido e determinado. Poderíamos designar por zona quântica aquilo que não traduz propriamente um espaço físico, ou qualquer ponto espacio-temporal, mas uma dimensão meramente potencial, uma possibilidade ou um conjunto de possibilidades. Para completar a estranheza da descrição que vim fazendo, acrescento que compete, de algum modo, à consciência do observador, situá-lo. Mas situá-lo é pô-lo. Por outras palavras, antes de ser observado e medido, estaria numa zona possível, e só a partir do momento em que o sujeito o detecta, actualiza a sua posição. O electrão passa, então, a estar num lugar. Parece-lhe que quero dizer que a consciência o faz nascer num dado "sítio", num dado momento? Que a consciência faz com que devenha, efectivamente, o que não existia efectivamente? Ainda bem que assim lhe parece, porque é mesmo o que quero dizer.

Lembra-se de Berkeley? Quão longe diria que estamos da sua teoria idealista?

O Gato de Schrödinger ilustra precisamente esta passagem de uma existência potencial para uma existência em acto. Quando, no seu exemplo, Schrödinger afirma que, fechado num compartimento a que nenhum observador tivesse acesso, um gato que pode morrer,  ou permanecer vivo (sendo o seu estado provocado por um mecanismo que não depende de nós e não temos como saber se será automática e aleatoriamente accionado, ou não), a morte e a vida do gato confundem-se numa irrealidade intermédia, numa zona de possibilidade. Temos dificuldade em compreender que não se trate apenas de ignorância nossa. Por outras palavras: que o gato, de facto, não esteja, ou vivo, ou morto - ainda que, sem aceder ao que ocorreu, não tenhamos como sabê-lo. Mas o exemplo de Schrödinger vai mais longe e corta mais radicalmente: a vida ou a morte do gato não são um facto antes de uma consciência percepcionar o que sucedeu, de modo que essa percepção "escolhe" a possibilidade, realiza-a: a consciência consubstancia uma das possibilidades: vê-lo vivo dá-lhe a vida, vê-lo morto, realmente, mata-o.

A partir daqui, compreendemos que nada no universo (fotões, electrões, neutrões, átomos) nem, portanto, o próprio universo, constituem uma realidade em acto, fechada, até ao momento em que sejam observados. A experiência do físico francês Aspect revela-nos que, na sua medição, verificamos que uma "entidade quântica" pode influenciar uma outra, como almas gémeas, mesmo a uma distância de anos-luz, numa "comunicação" instantânea e não-local. Uma vez mais, que significa isso? Que a interacção não depende de sinais transportados desta para aquela, ou de meios que, no tempo e no espaço, transmitissem esse sinal entre si. Independentemente da distância, e a uma velocidade impossivelmente superior à da luz, as entidades quânticas correspondem-se. Sem pontes nem percursos. É o que significa "instantaneamente" e é o que significa "não-localmente". 

Todos estes resultados me deixam pensar que a substância do universo, o estofo da realidade, não é a matéria, mas consciência. Se me perguntarem como se transita de um plano para o outro, ou como do nível atómico e subatómico, onde entidades indeterminadas, em parte potenciais, não situadas num espaço e num tempo, influenciando-se instantânea e não-localmente, se colapsa para compostos moleculares, agregados de átomos que se manifestam material e determinadamente, de acordo com leis e forças que tudo parecem reger, não sei responder. Não creio que os físicos o expliquem. Para já. Mas se esta teoria faz sentido, e se as nossas mentes individuais são expressões de uma consciência una e fundamental, se a matéria é sempre o que advém pela consciência e pela observação, então é a própria ciência que, nos seus tenteios, nas suas buscas, nas suas experiências, reabre as portas ao idealismo.

E, seguramente, à hipótese de Deus.

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