Deus: Mecânica Quântica e Berkeley II
"Esse est percipi"
George Berkeley
Nascido em 1685, crescendo, pensando e publicando já no século XVIII, George Berkeley foi um dos mais radicais filósofos idealistas, ao fundar um sistema que designou por "imaterialismo" (mais tarde chamado "idealismo subjectivo"). A sua obra não terá sido particularmente bem aceite: apesar da admiração que David Hume testemunhou ao pensador irlandês, referindo-se-lhe como "grande filósofo" e parecendo mesmo perfilhar o seu imaterialismo ou, pelo menos, admitir que reunira argumentos para discutir com seriedade a hipótese do realismo, o certo é que John Locke, por seu lado, discordou do imaterialismo, disparando, contra ele, objecções fortes - que Berkeley seria obrigado, aliás, a considerar e a incorporar em obras posteriores -, e que Thomas Reid procurou reduzir a sua filosofia a um cepticismo.
Que Berkeley fosse tratado como céptico soa quase insultuoso, se nos lembrarmos de que o seu objectivo explícito era combater o cepticismo. [Mas também, que diabo! que filósofo seu contemporâneo Reid não provocou?]
O que está em causa?
Para Berkeley, o pecado céptico deriva do dualismo. Que eu pressuponha a existência de dois planos distintos, res cogitans e res extensa - substância pensante e substância extensa - mente e mundo físico - é sempre a causa de que o conhecimento da realidade contenha um grão de dúvida: será por força o conhecimento, por um eu, das coisas que lhe são exteriores. Ora a exterioridade devém, então, o verdadeiro problema do conhecimento; o seu limite inultrapassável: não posso ter, sequer, a certeza de que as coisas de que possuo uma representação existam efectivamente. Que me permite não duvidar? Como distinguir entre o conhecimento do objecto que julgo existir ali - um candeeiro, um quadro na parede ou (num exemplo em que conjugaria vários tipos de sensações) a refeição que vejo, cheiro, oiço estalar no prato, ainda quente, ou saboreio -, e uma alucinação ou um sonho? Como sei que há, de facto, isso que percepciono? Que não se resume a uma fantasia ou a uma miragem?
A resposta de Berkeley a esta ferida sempre aberta, que nenhum dogmatismo pode ignorar (ou somente à custa de defender que o conhecimento é inato, e não adquirido) consiste em negar arrojadamente o dualismo. Não há pensamento, por um lado, e mundo material, por outro. Não há ideias, por um lado, e coisas, por outro. Não há percepção, por um lado, e ser por outro. Ou, por fim: não há dentro e fora - não há um conhecimento sustentado a partir de um interior, em face da exterioridade conhecida. Não há de todo exterioridade. Na sua síntese magistral: ser é ser percebido. Esse est percipi.
A realidade não é independente ou exterior ao conhecimento da realidade. Ela é conhecimento. Tal constitui a sua única substância. As coisas nada são fora da representação em que as percepciono. Não existe um cobertor material para além da percepção que tenho do cobertor. Ele coincide com esse conhecimento. Ele é esse conhecimento - essa percepção. O cobertor existe na medida em que o vejo e lhe toco. Ele é a ideia. É uma ideia na consciência. Em última análise, se ninguém estivesse a ver, ou a tocar, no cobertor, se não houvesse dele nenhuma percepção, não haveria cobertor. [Na verdade, para Berkeley, a consciência de Deus percepciona-o continuamente, pelo que, sendo ele sempre algo na consciência de Deus, nunca regressa ao nada].
Dir-se-á que, com a filosofia de Berkeley, se cai no mais profundo delírio. Numa hipótese contra-intuitiva, inútil, sem fundamentação.
E contudo.
Contudo, a história da Física, já desde meados do século XIX, mas, sobretudo, de 1900 em diante, sofreu surpreendentes mudanças e revoluções. Talvez no princípio os físicos não se apercebessem inteiramente do abismo que os aguardava. Mas a partir de certo momento, inevitável e incontornavelmente, as experiências e os cálculos sugeriam e desenhavam um outro paradigma. Cientistas como Planck, Einstein - que investiu, durante algum tempo, toda a sua inteligência na recusa das mais temíveis interpretações, que se viam compelidos a estabelecer -, e ainda Rutherford, Bohr, Schrödinger e Heisenberg, punham os alicerces da Física Quântica e, com ela, tantos séculos volvidos, de um regresso à visão idealista de Berkeley.
É em Berkeley e na Física Quântica que reencontro a "hipótese de Deus".
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