Viagem pela Filosofia em Busca de Deus: Prolegómenos IV
KANT [CONCLUSÃO]
Quando vai enunciando uma série de aspectos da "ordem natural", desde a regularidade e a delicadeza dos flocos de neve, à proporção e clareza de forma das flores, desde o facto de, "na estrutura de um animal, os órgãos da percepção sensível estarem tão engenhosamente conjugados com os do movimento voluntário e vitalidade", até ao de os felinos possuírem unhas retrácteis, que lhes permitem usá-las na caça, mas protegê-las durante o resto do tempo, desde a formação dos rios até a magnificiência frágil das teias que as aranhas tecem, procura Kant mostrar-nos que em tudo, no cosmos e na natureza, o que detectamos são estruturas, formações e órgãos contingentes, os quais, não podendo, pois, ser pensados como absolutamente necessários, constituem, no entanto, a realização de uma "possibilidade" sábia e artisticamente desenhada. Não só porque, individualmente tomada, cada uma dessas estruturas se mostra de uma eficácia digna de admiração para o alcançar de um fim particular, como também porque, em conjunto, todas elas se ajustam e completam, e complementam, possibilitando a existência de um universo onde o equilíbrio, a coerência, a troca e a multiplicação de objectivos, cumpridos pelos meios do indivíduo, conduzem simultaneamente à manutenção perfeita de uma máquina de contingências adequadíssimas no seu conjunto.
Uma vez mais, o segredo que nos deixa surpreender a sábia intenção oculta, ou revelada, no funcionamento do mundo, é a contingência. Nenhuma lei estabelece que, para existirem, os planetas devessem ser necessariamente esféricos. Mas o facto da sua esfericidade não pode deixar de nos impressionar como uma escolha, chamemos-lhe assim, em que se busca a funcionalidade óptima e a maior beleza.
Uma ordem mecânica, em que tudo resultasse deterministicamente da conjugação necessária de causas, impressionaria menos, e atestaria menos evidentemente a vontade e a intenção subjacentes - aquilo a que chamamos desígnio -, do que podermos olhar em volta e percepcionar, como se de obras de arte se tratasse, estruturas racionais, belas, ajustadas, que nada, nenhuma regra intrínseca, nenhuma verdade interna, nos deixaria antecipar. São apenas possíveis, quer dizer, podiam igualmente não existir. Dons gratuitos, de certo modo.
Há mais, portanto, neste "argumento cosmológico", assim o identifica Kant, ou neste "argumento do desígnio inteligente", assim o identificaríamos hoje, do que nas versões formuladas, antes e depois de Kant, por vários outros filósofos. É, aparentemente, um pormenor: a contingência. Que entes contingentes possam ser dotados de finalidade, torna difícil admitir que se deva a um acaso: prova-nos, verdadeiramente, um Deus-artista.
Quão convincentes são esta(s) prova(s)?
Primeiramente, não julgo que o argumento ontológico de Kant seja, em rigor, um argumento ontológico. Não infiro Deus apenas racionalmente do conceito de Deus. Faço-o da ideia de contingência; mas a ideia do que é contingente pressupõe sempre uma experiência para além da razão, quer dizer, que tenha observado efectivamente a existência de entes possíveis. A segunda prova, a cosmológico, é um complemento porque, sem essa observação do universo, a categoria de contingente não faria sentido algum. Seria inútil.
Mas, sobretudo, o mesmo pendor palavroso e fantasista que me frustra nos argumentos dos outros filósofos, permanece aqui. A sensação de que giramos em torno de categorias da mente (necessário, contingente, possível) que não podem ser transferidas para a existência como se de um pensamento formal me fosse possível extrair a realidade do objecto em que estou a pensar. Nada é, de facto, contingente ou necessário. Afirmar a necessidade de uma proposição, não significa senão, como Hume tão bem esclareceu, que estou a enunciar uma redundância. Não foi Kant, com a sua base única para uma demonstração, que colmatou, por fim, a brecha entre o argumento e a realidade.
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