Deus e a Biologia
Algum argumento exposto no meu anterior post prova a existência de Deus, mais consistente ou, pelo menos, eficazmente, do que os argumentos dos filósofos? Na verdade, não. Ainda que a substância da realidade fosse consciência (o que não constitui a única interpretação das experiências da mecânica quântica: existe também, é claro, uma leitura materialista dos resultados), não fica garantido que devamos ver essa consciência, a tudo subjacente, como "criadora" ou omnipotente. Simplesmente, mantém-se reaberta, e entreaberta, por uma metodologia que se alimenta da experimentação e da matemática, a hipótese de Deus.
A biologia, do meu ponto de vista, reforça essa ideia. O argumento do desígnio inteligente não desmente propriamente o darwinismo, mas denuncia a sua insuficiência. Como diria Kant, a finalidade do contingente e, ao mesmo tempo, o modo como esses fins detectáveis nas espécies, que se harmonizam com fins mais gerais, ou que se realizam através de uma troca, de uma parceria ou de uma simbiose, implicam um sentido que se torna difícil ver como uma sucessão de acasos, ou como um "arranjo" de acasos que, sem qualquer plano geral, se auxiliam coerente, sistemática e mutuamente, e se adaptam.
Fred Hoyle, num interessantíssimo livro cujo título é O Universo Inteligente, mostra, documentando abundantemente, que os erros genéticos, as mutações aleatórias, que o neodarwinismo considera serem a base da evolução das espécies, são, estatisticamente, causas de degradacão, mais que de progresso. Poderiam estes enganos do ADN desenhar a estrutura complexa, as finalidades evidentes, a função do olho ou da língua (ou das sobrancelhas), a orquestra a que chamamos cérebro?
Este cosmos e esta natureza racionais, sobre os quais Espinosa e Leibniz desviavam as cortinas, revelam-me a inteligência do todo no seu ser e no seu operar. É difícil não considerar a consciência e a inteligência como suportes de tudo, como tudo.
Se a consciência una ou a inteligência do mundo e da natureza nos apresentam um Deus todo-poderoso, uma forma de vontade, ou se, mais modestamente, se trata apenas do logos, o fio condutor com o qual nenhuma comunicação seria possível, que não ouviria nenhuma oração nem atenderia nenhuma prece, não sei. Para isso, restam a fé e os contornos de uma crença particular. Da "verdade" pregada por uma religião.
E sobre Deus, estamos esclarecidos:
1. Nenhum argumento é conclusivo. Inútil buscar provas da existência de Deus. E se, como pretende o religioso, a fé é um dom, então não vale a pena aguardá-la, nem procurá-la.
2. A física aponta para a ideia de que a realidade não é, no seu suporte essencial, matéria, mas consciência.
3. A biologia procura compreender, em todos os organismos, uma "como que" finalidade (Kant), que explica mais facilmente o seu funcionamento, do que se não tivesse fim algum.
A inteligência move, objectivamente, o mundo nas suas leis, no seu operar, numa semelhança com um telos.
Não preciso de lhe chamar Deus. Basta-me reconhecer que me supero, que a minha consciência é mais do que eu, que se vincula a uma consciencia mais abrangente; diria: infinita.
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