Viagem pela Filosofia em Busca de Deus: Prolegómenos III

        KANT


Para Imannuel Kant, só uma prova de Deus é válida, ou uma única demonstração, como a denomina, da Sua existência. Uma, só. Dá a entender que, se nos quisermos referir a um tipo de demonstração de carácter paramatemático, completa e rigorosa, só mesmo esta preenche a exigência, como se um ser com a envergadura de Deus não oferecesse, a um instrumento com a seriedade e o potencial da razão, mais do que um meio de O compreender, de O alcançar, ou como se diferentes caminhos não conseguissem chegar exactamente à mesma verdade.

Contudo, embora a base seja uma única, Kant apresenta-nos duas diferentes maneiras de a percorrer, consoante o ponto de partida. Se nos ativermos à razão e o objectivo for provar a existência de Deus apenas pela e com a razão, deveremos reformular o antigo argumento ontológico, ou criar um outro tipo de argumento ontológico, evitando a falácia em que os pensadores anteriores se deixaram enredar. Se, inversamente, quisermos iniciar o argumento pela experiência, pela observação, que os sentidos nos proporcionam, da estrutura do universo, desenharemos um argumento cosmológico: uma espécie de complemento do primeiro, porventura capaz de nos impressionar e falar mais à emoção, mas, sem dúvida, menos rigoroso e matemático do que aquele.

Qual a base do argumento ontológico de Kant (essa tal base para a "única demonstração possível" da existência de Deus)?

Já vimos que nos não é lícito tratar a existência como um "predicado" ou uma "propriedade" de Deus, afirmada como necessária pelo conceito de "ser acima do qual nenhum outro pode ser pensado" ou de "ser perfeito". Ao invés, para Kant, deveremos empregar as categorias de contingente e de possibilidade.

São elas a base de um novo raciocínio ontológico. Segundo ele, insisto, a única.

O que é o contingente? Em rigor, aquilo que existe, mas poderia não existir; o que, tendo uma posição no mundo, ou seja, existindo, não contém em si a sua necessidade interna, uma razão necessária para que exista. Deste modo, dizendo-me alguém que há ornitorrincos, eu, que nunca vi nenhum, poderia duvidar que eles fossem reais e negar a sua existência. 

Porém, prossegue Kant, para que entes não-necessários existam, isto é, para que haja seres cuja existência não decorre de uma necessidade interna, ou ainda, para que existam realidades que poderiam não existir, impõe-se que a sua existência fosse uma possibilidade. A categoria da possibilidade é-nos apresentada, pois, como afim da contingência. Aquilo que não tendo uma existência necessária, contudo existe, existe como uma possibilidade que se realizou, ou uma possibilidade que se materializou. Se, não sendo necessário, não fosse sequer possível, nunca existiria.

É esta a base: a possibilidade carece de um ser em que esteja presente como possibilidade; de um ser que, precisamente, a conceba como possível antes de existir. O que é necessário poderia existir como lei universal, numa espécie de mundo platónico sem Deus, como inteligibilidade pura. Mas não o que percebemos como apenas possível; o que existe podendo nunca ter existido, nunca ter vindo à existência. A pergunta de Kant não seria, pois, por que existe isto (já entendemos que existe sem uma justificação inquestionável), mas: como é possível que isto exista. Onde residia, desde sempre, a possibilidade de existir o que não tinha de existir - quem estabeleceu a mera possibilidade do que é, nessa medida, gratuito, como um ser não necessário a que se concedeu, qual dom, a existência? Porquê eu, por exemplo? Por que razão existo eu, que nada explica que devesse existir, tão diferente dos demais (como cada um de nós), tão singular no que me distingue de todos os outros?

O possível, assim, precisa de um ser que o tornasse possível. Eis Deus.

Examinaremos ainda como o argumento cosmológico há-de ver-se como adenda ou confirmação, ainda sustentado pela mesma base, a relação entre existir, contingência e possibilidade.


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