Viagem pela Filosofia em Busca de Deus: Prolegómenos I
Dinamizo, na escola em que lecciono, um clube de debate.
O clube é maravilhoso, porque ninguém o obriga a ser o que não é. Não tendo de cumprir um programa, nem objectivos impostos, não fazendo sequer parte da "área de cidadania", de modo a garantir a priori a autonomia e a independência a um grau extremo, foi formado a pedido de alunos que, indo, então, para o 12° ano e deixando de ter a disciplina, queriam continuar a encontrar-se comigo (com orgulho o digo), de forma a que não perdessem inteiramente a possibilidade do contacto com o "espírito da filosofia", o exercício da argumentação, as discussões infindas. Propus-lhes que nos revíssemos regularmente para debater, segundo três princípios orientadores: 1. Não existissem professores e alunos, mas iguais, irmanados pelo gosto da discussão e pela discussão propriamente dita. Não se trataria de aulas, com horários a cumprir, nem de nenhum tipo formal de aprendizagem. 2. Não haveria temas-tabu. Seriam os próprios membros a sugerir o tema. Na verdade, nem temas-tabu, nem posições "preferíveis" e posições "malditas", nem argumentos interditos. A única maneira de se pensar por si próprio é pensar sem receio de onde nos possa conduzir o pensamento, e sem medo de o expor. E 3. Os argumentos deveriam ser o principal e o princípio do que viéssemos a fazer. Não criaríamos um clube de "opiniões", mas de troca de argumentos. A outra face de se poder dizer tudo e defender qualquer tese é a responsabilidade no modo como se defende essa tese: com seriedade; com rigor; com exigência.
É no clube de debate que testo muitas das minhas ideias. E na última sessão, discutimos Deus e a religião. Tantas foram as pontas soltas, todavia, os argumentos que não se completaram, aquilo que ficou por dizer, que já se decidiu que a próxima sessão será, ainda, sobre Deus.
A minha formação, para não enganar ninguém, é religiosa. Católica, apostólica, romana. Os meus pais eram da geração de casais que se formavam nos "cursos de cristandade". Ouvia-os preparar as palestras, ou conversar sobre as suas crenças em reuniões de casais, na presença do Padre Rui.
Não terá sido antes dos 14 ou 15 anos que questionei seriamente a minha fé. Não recordo se passei por uma fase agnóstica. Recordo, sim, que tentei, durante algum tempo, adaptar Deus e a religião às minhas linhas vermelhas, ao horizonte daquilo que me era tolerável aceitar.
No meu caso, porém, claramente, a filosofia teve um papel dissuasor. Já vos contei que leituras filosóficas eram as minhas, desde cedo. Nietzsche, Freud, Marx, depois Sartre. É muito difícil conservar a fé quando se mergulha no fascínio destas leituras.
Bem entendido, os filósofos, ou muitos outros filósofos, para além daqueles que eu lia, "entendiam-se" com Deus. Desde Aristóteles a Agostinho, e deste aos medievais, que recuperaram tardiamente Aristóteles, e desde os Anselmos aos Aquinos, e ao Descartes, inaugurando a modernidade, muitos filósofos se dedicaram à procura de argumentos que nos convencessem irrefutavelmente da existência de Deus.
A familiaridade com os filósofos ensinou-me isto. Não se prova Deus. Como dizia um jovem no Clube de Debate, não existem provas irrefutáveis. Há quando muito, como em Pascal ou, de outro modo, em Kierkegaard, uma aposta. Um salto quântico. As razões de Pascal mais não são do que o montar dos vários cenários que se me apresentem, consoante a escolha. Escolhe bem, aconselha-nos. Mas, um tanto hipocritamente, escolher bem não é escolher a verdade, que a nossa razão não pode alcançar, é escolher a conveniência: aposta na "possibilidade" que, caso Deus exista, te garante a salvação eterna (nunca esquecer que a eternidade é muito, muito, muito tempo), ao invés da "possibilidade" contrária, que, se existir Deus, fará com que te percas para sempre.
Nesse entretanto, entre Pascal e Kierkegaard, confrontámo-nos com Kant.
Releio, neste momento, em versão inglesa, um livro em que o genial filósofo arrasa outras tentativas de provar que há Deus, nomeadamente o argumento ontológico, para estabelecer, em seu lugar, o que considera a única base possível para provar a Sua existência.
Será Kant convincente?
Adio a resposta a esta pergunta. Em próximo post comentarei, detidamente, os seus argumentos.

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