Viagem pela Filosofia em Busca de Deus: Prolegómenos II


 Em Der einzig mögliche Beweisgrund, que Gordon Treash traduz por The One Possible  Basis for a Demonstration of the Existence of God, "the one" este que, por minha vez, interpreto como "a única", lendo o título como se nos estivessem a falar de "a única base possível para a demonstração da existência de Deus", Kant principia, brilhantemente, de resto, por desmontar todas as veleidades do argumento ontológico.

Como sabemos, no argumento ontológico, que já Gaunilo, primeiramente, e o próprio Tomás de Aquino, depois, tinham tentado desfazer como não passando de uma falácia, procura extrair-se, do conceito de Deus, a prova da Sua existência. O conceito exige, quando pensado, a existência desse Ser. Porque um conceito determina os predicados necessários do objecto concebido. Deixem-me esforçar-me por trazer alguma clareza na reconstituição de um argumento que os meus alunos têm dificuldade em acompanhar e, por isso, julgo complexo para quem não esteja com ele familiarizado. Eu posso definir um triângulo como grande. Ou vermelho. Ou desenhado sobre uma folha de papel. Ou recortado em cartolina. Ou colado sobre um quadro. Nenhuma dessas características é necessária ao conceito de triângulo. Por outras palavras: sou capaz de imaginar um triângulo azul, ou verde, e ele pode existir (ou então posso desenhá-lo e pintá-lo eu mesmo), mas essas características são contingentes. Não definem a essência do triângulo, que não deixa de ser triângulo se tiver outra cor, ou se for mais pequeno. A triangulidade do triângulo não está na cor, nas dimensões, na substância. E poderiam não existir triângulos na realidade, que o conceito continuaria a ser possível e pensável. Ou seja: poderia pensar uma figura geométrica com três lados e três ângulos, ainda que não existisse nenhuma no mundo.

O que faz necessariamente parte do conceito do triângulo é o definir-se como uma figura geométrica com 3 lados. Posso pensar um triângulo que seja verde, ou um triângulo que não seja verde; é indiferente: o que não posso pensar é um triângulo que não tenha 3 lados, ou que não tenha 3 ângulos, ou cuja soma dos ângulos internos não perfaça 180°.

Voltemos a Deus. Definindo Deus, escreve Santo Anselmo, como o "ser acima do qual nenhum outro possa ser pensado", deduzo daí que esse ser exista - ou já não seria o "ser acima do qual nenhum outro poderia ser pensado" (posto que, se não existisse, eu poderia pensar num ser com os mesmos predicados e ainda a existência, que, assim, seria superior ao do 1° conceito. E, portanto, estaria a pensar um "ser acima do qual nenhum outro poderia ser pensado", que seria, ao mesmo tempo, um "ser acima do qual eu ainda conseguiria pensar um outro ser"; ora daí resultaria uma contradição lógica. Seria como estar a pensar, simultaneamente, o triângulo como uma figura geométrica com 3 lados, mas, ao mesmo tempo, como uma figura geométrica que não tivesse 3 lados).

Anselmo está convencido que não é indispensável a fé para se comprovar a existência de Deus. Basta a razão. Se o não-crente for racional e intelectualmente honesto, compreenderá, através deste raciocínio muito simples, que a existência de Deus é uma evidência.

O contra-argumento de Gaunilo parece-me muito bom: se a existência está contida no conceito de perfeição, quer dizer, se ao conceber o Ser Perfeito (Deus) tenho de assumir a sua existência - caso contrário estaria a contradizer-me formalmente concebendo o Ser Perfeito como um Ser não-Perfeito, uma vez que lhe faltaria a existência - tudo isso implicaria que, sempre que concebo uma ilha perfeita, ela deverá necessariamente existir. 

É Kant, contudo, quem detecta a falha no argumento. Não podemos tratar a "existência" como um predicado. Como uma característica "posta" pelo conceito. A existência é de uma ordem diferente da do conjunto de propriedades incluídas na ideia ou no conceito de um dado objecto. A minha ideia pode determinar o que entendo por um extra-terrestre, mas, de nenhum modo, que existam necessariamente extra-terrestres. Pode determinar o que é um Ser Perfeito (obrigando-nos até a fazer o favor de ignorar, nem que seja por um instante, que as ideias de perfeição e do que seja a perfeição variam de cultura para cultura,  senão de pessoa para pessoa), mas não pode exigir que dela decorra a existência desse ser. Faz sentido que eu diga: o Ser Perfeito é um Ser Bom. É um Ser Justo. Omnipotente. São características necessárias do Ser Perfeito. E, concedamos, mesmo a existência. Mas a "existência" em teoria. Quer dizer, um Ser Perfeito, para o ser, teria, sem dúvida de existir: mas estou a falar de uma existência "pensada", não convertível em existência real. 

A única forma, portanto, afirma Kant, de afirmar a existência seja do que for, ornitorrincos, gazelas, livros, pastas de dentes, motos ou Deus, será dando conta dessas existências, conhecendo-as pela experiência, como posições absolutas de coisas na realidade, e não postas formalmente pelo pensamento, independentemente da experiência. A não ser que haja outro modo de a razão remeter para a existência de Deus, sem cair no pecado capital de tomar a existência como uma "propriedade".

Muito bem.

Explanando uma crítica tão desenvolta e tão inteligente, estará Kant em condições de nos apresentar, em alternativa, a única base possível para uma demonstração da existência de Deus?

E de uma "demonstração", de facto, palavra tão pesada e tão forte, tão exigente?

Uma demonstração?

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