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A mostrar mensagens de abril, 2022

A Moral: Kant e Mill IV

 A fórmula do imperativo categórico que aceito como princípio regulador das acções é esta: "Toma a humanidade, tanto na tua pessoa, como na de qualquer outro, sempre também como um fim e nunca apenas como um meio ". Kant apresenta-a depois de outras duas, porventura mais rígidas e praticamente impossíveis. Alargá-la-ia de forma a que englobasse a existência inteira. Toma tudo quanto existe como fim - e se simultaneamente  como meio, nunca apenas  nessa qualidade.  As acções são boas se e quando descobrem e respeitam a dignidade dos seres, e não na medida em que os reduzem ou instrumentalizam. Hierarquizo este respeito que é por mim devido aos existentes, segundo o seu princípio vital e capacidade de sentir; mas, ainda assim, não estou inteiramente desobrigado em relação a nenhum tipo de ente. No seu todo, são a natureza, o cosmos, a existência, que me merecem atenção, cuidado e respeito. Entendo que esta regra contém o critério pelo qual algumas acções são boas e ou...

A Moral: Kant ou Mil? III

 Para John Stuart Mill, não faz o menor sentido que avaliemos uma acção como sendo, ou não sendo, boa em si mesma.  Todos os actos servem para realizar objectivos: são formas de produzir efeitos; assim, por que razão procuraria abstrair e isolar uma acção (ou um tipo de acção), considerando-a universal e moralmemente exigível per   se , não a relacionando com nenhuma génese ou circunstância, ou pessoas concretas, ou a maneira como tal acção vai, em tal situação, afectar tais pessoas? Donde, a medida do "agir bem" terá de residir unicamente na consequência . Na verdade, não há acções universais. Só por convenção social ou crença religiosa poderíamos pensar que dizer a verdade é, em si mesmo, quer dizer, intrinsecamente , melhor do que mentir. Como posso afirmá-lo, se não tiver conhecimento de que consequências acarretam, e para quem, neste contexto, acarretam consequências, boas ou más, o acto de dizer a verdade, ou o acto de mentir? Um e outro são meios concretizadores...

A Moral: Kant ou Mill? II

 Um filósofo francês, Benjamin Constant, inventou - para discutir a teoria moral de Kant segundo a qual o móbil da nossa acção deve ser sempre o respeito pelo imperativo categórico, lei incondicional da nossa razão - uma breve história de terror. O meu amigo entra em minha casa. Vem agitado e assustado, conta-me que o persegue um louco homicida; sem me dar tempo para reagir, esconde-se. Ainda nem bem fui capaz de digerir a informação, já pancadas na porta atroam os ares e indignam vizinhos. Abro, sem haver escolhido ainda a expressão ou a pose mais convenientes, e deparo com o assassino doido, os olhos raiados de sangue, o facies crispado, deixando ler a raiva incontível, um punhal numa mão. Afasta-me com violência, penetra em minha casa, busca, desconfia, interpela-me, roucamente: Quem procuro está aqui escondido? A pergunta dirigida à moral de Kant só pode ser: devo dizer a verdade? Devo mentir? A resposta de Kant, diria, mostra-se indigna do grande filósofo. Por um lado, le...

A Moral: Kant ou Mill? I

 Assento, pois, em que não é no domínio do conhecimento que a retórica encontra o seu lugar, mas no dos valores. Um argumento, como já vimos, não observa, não descreve, nem traduz as relações do objecto em fórmulas matemáticas. Defendo que, em diversos graus, são estas as operações que definem o conhecimento. Ora o objectivo da argumentação é apenas tornar preferível uma maneira de interpretar. Não prová-la. [Deixemos de lado, para esta discussão, se se entende por 'prova', na ciência, em sentido lato, a 'confirmação' ou a 'falsificabilidade' da hipótese]. Confundimos tudo quando buscamos argumentos como exercícios próprios do conhecer, a não ser numa acepção muito lata da palavra. A distinção é antiga. Uma opinião e uma crença não são conhecimento, ainda que o conhecimento implique, aceitando a definição de Sócrates e Teeteto, algum tipo de crença.  Um campo em que o exercício argumentativo terá o seu uso mais justificado é o dos valores éticos.  A pergunta su...

Deus, Kierkegaard e o Cepticismo II

  A tese do cepticismo é arrasadora. A partir do momento em que lhe entreabrimos a porta, não teremos como tornar a fechar-lha. Todas as nossas certezas ficam contaminadas. Se Descartes provou alguma coisa, foi que a dúvida é criativa. Muito mais criativa do que os argumentos, quaisquer argumentos, com que viso confirmar as minhas ideias. A propósito, de tal forma o que vim de escrever se ajusta, que nem o "eu penso" se transformou na evidência irrefutável a que Descartes o elevou. O passe de magia cartesiano consiste em aglutinar o acto de pensar e a existência de um sujeito, como se, sob o modo como enuncio o verbo, na primeira pessoa do singular, se me desse imediata e indecomponivelmente, no pensar, o "eu" que estaria pensando. Ora poderia (sejamos hiperbólicos, uma vez que o próprio Descartes no-lo autorizou) haver apenas pensamento, sem um sujeito que o produzisse e, assim sendo, o eu mais não ser do que uma ilusão dessa actividade pensante, uma unidade sem r...