Deus, Kierkegaard e o Cepticismo II

 

A tese do cepticismo é arrasadora. A partir do momento em que lhe entreabrimos a porta, não teremos como tornar a fechar-lha. Todas as nossas certezas ficam contaminadas. Se Descartes provou alguma coisa, foi que a dúvida é criativa. Muito mais criativa do que os argumentos, quaisquer argumentos, com que viso confirmar as minhas ideias.

A propósito, de tal forma o que vim de escrever se ajusta, que nem o "eu penso" se transformou na evidência irrefutável a que Descartes o elevou. O passe de magia cartesiano consiste em aglutinar o acto de pensar e a existência de um sujeito, como se, sob o modo como enuncio o verbo, na primeira pessoa do singular, se me desse imediata e indecomponivelmente, no pensar, o "eu" que estaria pensando. Ora poderia (sejamos hiperbólicos, uma vez que o próprio Descartes no-lo autorizou) haver apenas pensamento, sem um sujeito que o produzisse e, assim sendo, o eu mais não ser do que uma ilusão dessa actividade pensante, uma unidade sem realidade.

Kierkegaard, que nunca se assumiu como céptico nem quis sê-lo, excluiu o problema da verdade existencial, reduzindo-o a um não-problema. A minha existência não se mede pelas categorias de verdade ou falsidade. [Pode ser autêntica ou inautêntica, ou seja, vivida conscientemente, ou, pelo contrário, como representação de papéis]. Mede-se como sentido. Este não é verdadeiro ou falso. O sentido da minha existência, como esteta, ou como ético, ou como religioso, constitui tão-só o seu elemento dominante, agregador, e aquilo que estrutura a forma como vejo o mundo e o que nele faço. Em rigor, não há misturas. Ninguém se revê como, simultaneamente, esteta & ético & religioso, até porque são formas opostas de sentido. Eventualmente, que haja ingredientes éticos num modo estético de existência, é a possibilidade, um dia, de uma mudança. Mas, para já, algum dos modos tem de ser o primordial no meu existir. Não se imaginaria um Don Juan religioso ou um Kant esteta. Ainda que este último tenha dedicado uma parte (interessantíssima e importantíssima, aliás) da sua obra,  quer à estética (Crítica da Faculdade de Julgar), quer à religião (A Religião nos Limites da Mera Razão), todos percebemos que o ponto forte e não sacrificável da sua filosofia, que a dirige e fundamenta, se mantém a ética.

Mas uma parte importante da filosofia é o grão de cepticismo nela contido. Mesmo quando os grandes racionalistas e os filósofos dogmáticos o querem superar, não o fazem sem com ele se confrontar. Não apenas Descartes. Até Hegel e a sua fenomogia de um Saber Absoluto que espera completar-se para se fechar definitivamente. (O que faz na sua filosofia e na sua obra, dele, Hegel. Depois de Hegel, julga Hegel, nada a pensar ou a dizer. Depois de perfeito o "Todo" não subsiste nenhum "resto").

Quais as consequências do cepticismo?

Por um lado, torna-nos mais exigentes e mais rigorosos. Paradoxalmente, não nos impede de continuar a procurar conhecer. Mostra-nos que nem sempre os conhecimentos respondem à chamada do par verdadeiro ou falso. Podem ser avaliados como tendo sentido ou não tendo sentido, o que já seria completamente diferente. (Ou como sendo úteis ou inúteis, por exemplo, ou belos ou horrendos). O que lhes dá um valor independente da sua "correspondência" aos factos.

Para Kierkegaard, nenhum argumento comprova verdades. O que me leva a aceitar certa interpretação é um modo de estar segundo o qual existo, e pelo qual estou já predisposto a reconhecer aquela interpretação como tendo sentido, ou como tendo, para mim, mais sentido do que outras. Os argumentos não atestam a verdade dessa interpretação. Ela pertence ao meu mundo. Ao meu estádio. À minha esfera.

Deus, como o próprio Kierkegaard nos mostra, não deixa de ser uma possibilidade na minha vida. Por outras vias, por outros meios,  o homem que O visa, que O deseja, pode atraí-lo para a sua existência. Incluindo o que acredito que a Física ou a Biologia me permitem crer. Mas, make no mistake, é apenas de um crer que em ultima análise se trata. Deixo de O integrar como objecto de conhecimento, ou como uma verdade da ordem da razão, moldável por argumentos que Mo provem para sempre. 

Em última análise, basta que faça sentido para mim.

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