A Moral: Kant e Mill IV

 A fórmula do imperativo categórico que aceito como princípio regulador das acções é esta: "Toma a humanidade, tanto na tua pessoa, como na de qualquer outro, sempre também como um fim e nunca apenas como um meio". Kant apresenta-a depois de outras duas, porventura mais rígidas e praticamente impossíveis.

Alargá-la-ia de forma a que englobasse a existência inteira. Toma tudo quanto existe como fim - e se simultaneamente como meio, nunca apenas nessa qualidade. 

As acções são boas se e quando descobrem e respeitam a dignidade dos seres, e não na medida em que os reduzem ou instrumentalizam. Hierarquizo este respeito que é por mim devido aos existentes, segundo o seu princípio vital e capacidade de sentir; mas, ainda assim, não estou inteiramente desobrigado em relação a nenhum tipo de ente. No seu todo, são a natureza, o cosmos, a existência, que me merecem atenção, cuidado e respeito.

Entendo que esta regra contém o critério pelo qual algumas acções são boas e outras são más. Dizer a verdade, por exemplo, tem de ser, em si, melhor do que mentir, uma vez que só a primeira escolha constitui o exercício integral de respeito pela dignidade do outro. Mentir implica que, em nome de alguma coisa, o rebaixo, o engano, lhe nego o acesso ao que eu sei ou ao em que creio. Não o trato como a um igual.

Porém, nenhuma acção que seja em si mesma boa, quer dizer idealmente boa, é absolutamente boa. A situação em que devo decidir o que fazer opera como um refractor: acrescenta, retira, distorce. O elemento em que o acto se realizará não pode ser ignorado. Assim, as boas acções, sempre preferíveis no abstracto e em teoria, na prática não podem não ser equacionadas na sua relação com uma "exterioridade" que as torna adequadas ou desadequadas em cada momento. Por outras palavras, a razão pela qual Kant e Mill são, ambos, importantes, é porque cada um deles nos mostra um dos lados do que só em conjunto define a boa acção. 

Agir bem, nesta perspectiva, mais do que para uma norma absoluta ou do que, inversamente, para a ausência de norma, substituída pela consideração das consequências - remete para uma estrutura. Os mecanismos que desvendam essa estrutura são a razão e a emoção, ou a inteligência e a sensibilidade: a capacidade racional de estabelecer o que é bom, por um lado, e a capacidade de empatia e compaixão, por outro. Ao invés da "universalidade", de Kant, a "universabilidade", proposta por Eric Weil. Uma ideia de universal que se adapta, procura ajustar-se às circunstâncias: sem perder de vista o que, em si, é a-histórico, e sem perder de vista as condições em que se inscreve na história. 


Comentários

Mensagens populares deste blogue

Deus e a Biologia

A Moral: Kant ou Mill? I

Deus, Kierkegaard e o Cepticismo I