A Moral: Kant ou Mil? III

 Para John Stuart Mill, não faz o menor sentido que avaliemos uma acção como sendo, ou não sendo, boa em si mesma. 

Todos os actos servem para realizar objectivos: são formas de produzir efeitos; assim, por que razão procuraria abstrair e isolar uma acção (ou um tipo de acção), considerando-a universal e moralmemente exigível per se, não a relacionando com nenhuma génese ou circunstância, ou pessoas concretas, ou a maneira como tal acção vai, em tal situação, afectar tais pessoas?

Donde, a medida do "agir bem" terá de residir unicamente na consequência. Na verdade, não há acções universais. Só por convenção social ou crença religiosa poderíamos pensar que dizer a verdade é, em si mesmo, quer dizer, intrinsecamente, melhor do que mentir. Como posso afirmá-lo, se não tiver conhecimento de que consequências acarretam, e para quem, neste contexto, acarretam consequências, boas ou más, o acto de dizer a verdade, ou o acto de mentir? Um e outro são meios concretizadores de efeitos sobre os indivíduos, as sociedades, o mundo. Esses efeitos devem ser, pois, critério moral.

Este é o primeiro ponto do tipo de consequencialismo concebido por Mill. Actos bons são actos com "boas" consequências, actos maus são os de que resultam consequências "más". 

Mas como definimos o que são consequências "boas"? 

Hão-de ser as que introduzem maior quantidade de felicidade, sendo a felicidade aqui tomada, hedonisticamente, como prazer ou evitamento da dor. Eis o segundo ponto da teoria. Reduzamo-nos aos seres naturais que realmente somos, com inclinações, desejos e diversos graus de satisfação, quer dizer, tudo o que a Kant repugnava que tivesse qualquer interferência nas nossas escolhas morais. 

Terceiro ponto: é, entre várias possíveis, a acção que, em comparação com as demais, provocará a maior quantidade de felicidade, aquela que devemos escolher; não a felicidade para alguém em particular, nem a do agente da acção. A maior quantidade em geral, que também não coincide necessariamente com a felicidade da "maioria", ao contrário de uma certa vulgarização das ideias de Mill, que acabou por vingar e resumi-lo (mal).

O utilitarismo tem razão. Não posso, diria, abstrair das consequências para avaliar da bondade do meu acto. Acções que,  aqui, agora, redundam em catástrofe e sofrimento não são, aqui e agora, boas acções. 

O problema - bem!, o problema radica em que, do meu ponto de vista, Kant tem igualmente razão: há acções intrinsecamente boas e outras que não podem senão ser vistas como más. A violação é um exemplo indiscutível de uma má acção, no mais fundo de si e aquém de quaisquer justificações que encetasse.

Conseguirei unir ambas as teses numa teoria deontológica e consequencialista, simultaneamente - que, no que me diz respeito, se trata menos de um utilitarismo que recebeu alguma coisa da moral de Kant, do que, inversamente, um kantismo que se revê e reformula, sem trair a sua essência, espero!, sob os auspícios do utilitarismo?

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