A Moral: Kant ou Mill? I
Assento, pois, em que não é no domínio do conhecimento que a retórica encontra o seu lugar, mas no dos valores. Um argumento, como já vimos, não observa, não descreve, nem traduz as relações do objecto em fórmulas matemáticas. Defendo que, em diversos graus, são estas as operações que definem o conhecimento. Ora o objectivo da argumentação é apenas tornar preferível uma maneira de interpretar. Não prová-la. [Deixemos de lado, para esta discussão, se se entende por 'prova', na ciência, em sentido lato, a 'confirmação' ou a 'falsificabilidade' da hipótese]. Confundimos tudo quando buscamos argumentos como exercícios próprios do conhecer, a não ser numa acepção muito lata da palavra. A distinção é antiga. Uma opinião e uma crença não são conhecimento, ainda que o conhecimento implique, aceitando a definição de Sócrates e Teeteto, algum tipo de crença.
Um campo em que o exercício argumentativo terá o seu uso mais justificado é o dos valores éticos.
A pergunta subjacente pode, precisamente, enunciar-se como "que tipo de máximas de acção considero preferíveis". Dir-se-ia que é pouco. Quando se pensou, durante tanto tempo, qual seria o critério das boas acções, não deixa de soar mesquinho substituir as categorias de bom e mau, por preferível. Mas as questões profundas mantêm-se, se se trata de decidir o que é preferível como princípio: o que o torna preferível? e preferível para quem?
Menciono neste post Kant e Mill porque, consabidamente, embora outros filósofos da ética definissem contornos interessantes ao problema e à solução, aqueles dois, grosso modo, expõem as teorias opostas de que se alimentam praticamente todos os dilemas morais. Ou há actos que são universalmente bons (por razões intrínsecas à superioridade da verdade sobre a mentira, por exemplo, dizer a verdade constitui uma acção universalizável, sempre e necessariamente melhor do que mentir); ou tudo se mede pelas consequências: as acções não são intrinsecamente boas; nada as torna preferíveis para sempre, independentemente da situação concreta e, sobretudo, das consequências que, nessa situação, se prevê que o meu acto desencadeie.
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