A Moral: Kant ou Mill? II

 Um filósofo francês, Benjamin Constant, inventou - para discutir a teoria moral de Kant segundo a qual o móbil da nossa acção deve ser sempre o respeito pelo imperativo categórico, lei incondicional da nossa razão - uma breve história de terror. O meu amigo entra em minha casa. Vem agitado e assustado, conta-me que o persegue um louco homicida; sem me dar tempo para reagir, esconde-se. Ainda nem bem fui capaz de digerir a informação, já pancadas na porta atroam os ares e indignam vizinhos. Abro, sem haver escolhido ainda a expressão ou a pose mais convenientes, e deparo com o assassino doido, os olhos raiados de sangue, o facies crispado, deixando ler a raiva incontível, um punhal numa mão. Afasta-me com violência, penetra em minha casa, busca, desconfia, interpela-me, roucamente: Quem procuro está aqui escondido?

A pergunta dirigida à moral de Kant só pode ser: devo dizer a verdade? Devo mentir?


A resposta de Kant, diria, mostra-se indigna do grande filósofo. Por um lado, lembra ele, não posso ter a certeza de que as consequências de mentir ao louco não viriam a ser mais trágicas do que as de lhe dizer a verdade. Sim, é claro. Jorge Luís Borges, numa conferência, sublinhava, em defesa do imperativo categórico, que não só nunca somos capazes de antecipar com exactidão as consequências imediatas, como, ainda para mais, as consequências se ramificam nas consequências das consequências, até ao infinito, de modo que seria impossível um balanço em que, a longo prazo, determinássemos se a acção provocou maior quantidade de felicidade ou de sofrimento. 

Uma vez mais, de acordo. A questão é que o ponto não é esse, como tentarei mostrar.

Por outro lado, Kant insiste em que, independentemente da situação ou das consequências, só a verdade como valor contém a potência para se formular numa máxima universalizável: a universalização da mentira implicaria a total irrelevância da confiança na palavra de outrem, a perda de razão de ser da promessa e do juramento, a impossibilidade de qualquer contrato e, portanto, de uma vida social. Admitamos. Mas continuamos a fugir ao que, a Kant, deveria importar.

Um aluno meu, de 10° ano, chamado Filipe (faço questão de lhe mencionar o nome) perguntou-me: "Mas essas considerações de Kant não apelam, todas, para as consequências? Desde não saber de que acto derivariam resultados mais nefastos, até ao reconhecimento de que a mentira tem sempre efeitos gravemente perniciosos para a vida em sociedade, incluindo não poder constituir-se uma sociedade, o que Kant faz não é recorrer a exemplos de consequências, para justificar uma moral que não deve guiar-se pelas consequências?"

Obrigado, Filipe. Em cheio! Julgo ser esse precisamente o ponto. 

Porém, esta crítica das razões de Kant, não derruba os fundamentos da sua moral. Deixo a ideia kantiana, para já, aberta a uma reflexão subsequente. 

Entretanto, e para regressar mais tarde a Kant, em próximo post tratarei de discutir a posição de John Stuart Mill. O bem e o mal são meras convenções impostas pelos costumes e pela religião, não havendo outra forma de avaliar os actos senão, precisamente, pela suas consequências?

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